Nota
3

“Gostamos de acreditar que temos o controle das nossas vidas, porque, em um único instante, tudo pode mudar. A noite do baile se transformou de repente, me deixando com medo e muito confuso.”

Depois de derrotar a Zzyzx e frustrar os planos da Madacorp, Kyle e Jessi acreditam finalmente ter conquistado alguma liberdade para decidir o próprio destino. A tranquilidade, porém, dura pouco. Se durante a segunda temporada a Latnok permaneceu observando os acontecimentos das sombras, agora a organização decide agir diretamente, trazendo Michael Cassidy para se aproximar de Kyle e Jessi e convencê-los de que suas habilidades podem servir a um propósito maior. O problema é que, quanto mais Kyle tenta descobrir quais são as verdadeiras intenções da Latnok, mais difícil se torna distinguir quem realmente deseja ajudá-lo e quem continua enxergando XY apenas como o experimento perfeito. Paralelamente, a família Trager também enfrenta um período de mudanças. Lori se vê dividida entre os sentimentos que ainda guarda por Declan e a aproximação com Mark Brandt, Josh precisa lidar com uma nova fase de seu relacionamento com Andy, enquanto Amanda e Kyle enfrentam as consequências da crescente proximidade entre ele e Jessi, agravadas pela chegada de Nate Harrison.

Depois de uma segunda temporada ambiciosa, repleta de desdobramentos e subtramas que se desenvolveram ao longo de 23 episódios, Kyle XY decide dar um passo para trás e inicia, em 12 de janeiro de 2009, sua problemática e curta terceira temporada. Com apenas dez episódios de cerca de 45 minutos, o novo ano promete finalmente revelar a verdade sobre o passado de Kyle e Jessi, além de desvendar os reais objetivos da Latnok. O que chega ao espectador em 16 de março de 2009, porém, é um encerramento incapaz de responder às principais perguntas levantadas pela própria série, deixando muito mais dúvidas do que certezas. O grande problema não está exatamente na trama, mas na forma como ela é conduzida. Mesmo com o cancelamento já sendo uma possibilidade antes da estreia da temporada, o roteiro parece apostar todas as suas fichas em criar expectativa para um quarto ano que nunca aconteceria. Na tentativa de manter o público preso a novos enigmas, a série passa a criar mistérios antes de solucionar os antigos, adia explicações importantes e deixa em segundo plano a carga emocional que sempre sustentou seus personagens. Como consequência, diversas situações acabam sendo resolvidas por conveniências de roteiro e sucessivos deus ex machina, comprometendo a credibilidade da narrativa e enfraquecendo justamente aquilo que fazia Kyle XY funcionar tão bem.

Matt Dallas e Jaimie Alexander são colocados diante do maior desafio da série: sustentar uma temporada em que o roteiro parece muito mais interessado em criar perguntas do que em desenvolver seus personagens. A aproximação entre Kyle e Jessi é compreensível dentro da narrativa, afinal ambos compartilham uma origem semelhante e um sentimento constante de não pertencimento, mas o romance surge tarde demais, recebe tempo excessivo e acaba desviando a atenção de conflitos muito mais interessantes que permanecem sem desenvolvimento. Hal Ozsan também assume um papel central como Michael Cassidy, figura responsável por conduzir a trama da Latnok, mas o personagem jamais recebe profundidade suficiente para que suas verdadeiras motivações convençam o espectador. O mesmo acontece com a própria organização, que permanece envolta em mistério durante praticamente toda a temporada, adiando explicações até os minutos finais. Enquanto isso, diversas subtramas são encerradas de forma apressada ou excessivamente conveniente, como o conflito envolvendo Amanda após os acontecimentos da estreia, ao passo que outras situações cotidianas acabam ocupando tempo demais sem contribuir para o avanço da história principal. Até Nicole Trager, uma das personagens mais importantes dos primeiros anos, perde espaço à medida que a série abandona parte de seu drama familiar para mergulhar quase exclusivamente na conspiração científica. O resultado é uma temporada que concentra praticamente todas as respostas para seus instantes finais, entregando um cliffhanger impactante que, em outro contexto, seria um excelente gancho para o futuro. Com o cancelamento da série, porém, esse desfecho deixa de ser empolgante e passa a representar apenas a dolorosa sensação de uma história interrompida antes da hora.

A terceira temporada de Kyle XY demonstra como uma série pode crescer em escala enquanto perde parte daquilo que a tornou especial. A chegada da Latnok amplia significativamente a mitologia da obra e coloca Kyle e Jessi diante de um dilema interessante: descobrir se suas habilidades representam uma oportunidade para mudar o mundo ou apenas mais uma forma de serem explorados como experimentos científicos. O problema é que, enquanto expande seu universo, a narrativa deixa para trás perguntas fundamentais sobre Adam Baylin, Sarah Emerson, Jessi e até a própria Madacorp, substituindo respostas por novos enigmas. O cancelamento da série certamente tornou essa sensação ainda mais frustrante, mas ela também nasce de uma escolha criativa dos roteiristas. Mesmo sabendo que a renovação era incerta diante da queda de audiência, a temporada prefere construir um enorme cliffhanger em vez de oferecer um encerramento minimamente satisfatório para os conflitos que vinha desenvolvendo há três anos. Posteriormente, Julie Plec revelou em entrevistas à ABC Family diversos planos para a continuação da história, mas conhecer o destino imaginado para aqueles personagens jamais substitui a experiência de vê-lo acontecer. Talvez seja por isso que, mais de uma década após seu fim, Kyle XY continue despertando o desejo de uma continuação. Não apenas para responder às perguntas que ficaram em aberto, mas para permitir que uma série tão criativa finalmente recebesse o desfecho que sempre pareceu merecer.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.